Manter a casa em ordem

14/10/2012 19:11

por Thiago Mariz*

Certa vez o apóstolo Paulo, conversando com um de seus companheiros, afirmou que deveríamos prestar bastante atenção no que certos cristãos diziam. Segundo ele, algumas pessoas deturpavam ideais e criavam novas doutrinas falsas. O que devemos entender da passagem "Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina: persevera nestas coisas; porque, fazendo Isto, te salvarás, tanto a ti mesmo como aos que te ouvem"** é que o equilíbrio interno é importantíssimo para aquele que pretende ser um multiplicador das coisas do Cristo.

Quando colocamos nossos filhos na escola esperamos que a professora tenha todo um preparo acadêmico para lidar com as diversas situações que surgirão. Com o aspecto religioso acontece o mesmo. Em uma Casa Espírita por exemplo, quando procuramos a reunião pública com palestras edificantes, estamos em busca de pessoas que têm preparo para passar aqueles ensinamentos. Porém sabemos que o ser humano possui dificuldades internas que ainda precisa depurar. E muitas vezes o próprio trabalhador da seara evangélica cruza os braços, cai nas teias do desânimo e da negatividade e se esquece que muitos inclusive aceitaram a missão de serem orientadores.

Para cuidar da Doutrina Espírita e, claro, do lado religioso que muitas vezes serve de exemplo para outras pessoas, é preciso em primeiro lugar cuidar de si, lapidar o equilíbrio interno para vencer com mais propriedade os desafios de um mundo cheio de provas. Se o Espiritismo nos ensina que esse planeta é um lugar onde passaremos por provas morais e onde também pagaremos "dívidas" de ações feitas anteriormente, pressupomos que o ser humano é imperfeito e por isso mesmo precisa estar sempre atento para não cair. É a profunda expressão do "orai e vigiai" tão falada por Jesus. Como ajudar alguém se nós nos encontramos perdidos e cheios de problemas? Orar e vigiar quer dizer se manter em alerta, em capacidade lúcida para afastar as más inclinações.

Com o lado espiritual em constante vigilância, e mais equilibrado, passamos para a segunda etapa que é a do estudo. Quando alguém se propõe a ser o canal de divulgação de algum ensinamento importante é preciso ter muita responsabilidade – principalmente no âmbito das religiões, pois essa pessoa está doutrinando outra, dando exemplos morais e passando conhecimentos importantes para o crescimento moral de uma pequena multidão. Como vamos ajudar alguém se não entendemos sequer do que falamos? E pior: e quando falamos algo errado de má fé? Quantos de nós não temos conhecimento de pessoas que usam a suposta palavra de Deus para criar fiéis cegos de toda lucidez? Quantos não usam Deus para se enriquecerem financeiramente? Esse é um erro gravíssimo que a Lei Divina saberá ajustar a seu tempo. Mas não nos enganemos: nada passa em branco perante o Pai Maior.

O trabalho sério de uma Casa Espírita deve ter como pilar os livros básicos de Allan Kardec. Ele foi o codificador de tudo o que conhecemos hoje como Espiritismo - tudo o que foge desses ensinamentos deve, no mínimo, ser visto com cautela. Daí a importância de nós mesmos procurarmos o estudo evangélico. Só assim teremos subsídios para entender uma palestra e refugar certas informações caso seja necessário. Isso vale para qualquer religião. O conhecimento e o estudo nos deixam aptos a entender realmente e saber questionar quando achamos que algo está equivocado. E a Doutrina Espírita tem, por excelência, essa grande qualidade. Ela é questionadora; fomenta nas pessoas aquele espírito de "quero mais"; de saber os reais motivos das coisas.

Por outro lado, se o estudo é importante, também é certo que não devemos ficar apenas atrás dos livros, cheios de teorias perfeitas. É preciso agir também, cair na seara da prática. O próprio Jesus não escreveu nada. Ele apenas agia. Ele fazia acontecer. E mostrava através de seus exemplos aquilo que o Pai gostaria que fizéssemos. Amar. Jesus deu exemplo prático de tudo aquilo que pregou. Isso é até mais fácil, pois temos a tendência de seguir exemplos. E ainda evita os típicos acusadores do tipo "você fala e não faz nada". Isso não existiu com Jesus.

Então que cuidemos de nós e em seguida da doutrina, da causa que abraçamos. É salutar para todos que aproveitam esses ensinamentos.

* Thiago Mariz é coordenador do Departamento de Comunicação Social do 15º CRE MG
** Paulo, 1ª Epístola a Timóteo, capítulo 4, versículo 16.