*Artigo sobre o Livro O Céu e o inferno.

25/10/2015 14:21

Artigo sobre o Livro O Céu e o Inferno.

"A missão dos reformadores está cheia de escolhos e de perigos e a tua é rude, disso te previno, porque é o mundo inteiro que se trata de agitar e de transformar."

Espírito de Verdade.

Em um primeiro momento é importante retratar, de forma sucinta, o momento em que a França vivia na ocasião em que Allan Kardec codificou a Doutrina Espírita.

Os excessos nos privilégios do clero e da nobreza levaram a monarquia a uma situação econômica e financeira de completo descontrole. A burguesia com o respaldo da insatisfação popular promove a Revolução Francesa, tendo como marco a Tomada da Bastilha em 14 de Julho de 1789. Inspirados nas ideias iluministas, sob a bandeira da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, os revolucionários são levados à elaboração da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.

No entanto, as crises que vieram a promover enormes violências e levaram a França a um estado de terror, abrindo assim o caminho para que Napoleão em 6 de maio de 1804 seja consagrado Imperador, governando até 1814 quando caiu do poder e foi exilado. Napoleão institui o Código Civil Francês e promove uma enorme reforma no sistema educacional. Neste período a França tornara-se a potência política dominante na Europa.

Após a saída de cena de Napoleão é retomada a monarquia dos Bourbons (1814 – 1848) e os períodos subsequentes são conhecidos como segunda república (1848 – 1852) e segundo império (1852 – 1870). Nestes últimos, ocorre a expansão do império francês sendo atingido o sudeste asiático, o pacífico e o norte da África (Marrocos, Tunísia e Madagascar).

Neste mesmo tempo a evolução dos conhecimentos científicos parece mudar de rumo. A Física clássica newtoniana começa a dar lugar a quântica; A Química propõe novas teorias que objetivam desvendar a estrutura atômica e no campo da Biologia, Darwin elabora a teoria da evolução das espécies que não atribui a Deus o ato da criação.

Digno de destaque é a herança deixada por Emmanuel Kant que via o homem como cidadão dos mundos material e espiritual. Segundo o pensador, o homem só pode adquirir um conhecimento prático ou moral do mundo, de si mesmo e de Deus; jamais o conhecimento absoluto. Diante desta forma de pensar, sobretudo a partir da segunda metade do século XIX, o homem começa a ser visto de diversas formas e por diferentes pensadores: Darwin – O homem biológico; Marx – O homem econômico; Freud – O homem instintivo; dentre outros.

A Igreja Católica se contrapõe a todos esses movimentos. O catolicismo fica totalmente intransigente, recusando qualquer aproximação com a ciência, progresso, industrialização, liberalismo e filosofia. Esta posição retrógrada provocará a laicização do Estado e a desconstrução do monopólio da Igreja Católica, que agora divide as atenções com um bom número de Igrejas Protestantes, grupos e instituições com fins missionários.

De forma bastante resumida este é o panorama da Europa no momento em que Allan Kardec resolve pesquisar e levar a sério vários fenômenos até então inexplicáveis, como por exemplo, o caso das mesas girantes, batidas sincronizadas e intermitentes, que sugeriam algum método de comunicação do mundo dos espíritos.

A codificação espírita se inicia em 1857 com a publicação de “O Livro dos Espíritos” onde através de mais de mil indagações, Kardec, se utilizando de vários médiuns, sabatina espíritos superiores assistidos de perto pelo Espírito da Verdade.

O Livro dos Espíritos é composto de quatro partes distintas, e cada uma delas dará origem à outra obra. A primeira parte intitulada “As Causas Primárias” se constituirá no livro “A Gênese” (1868); a segunda parte que trata do “Mundo Espírita ou dos Espíritos” será verificada de forma mais detalhada em “O Livro dos Médiuns” (1861); a terceira parte que traz como título “As Leis Morais” estará consubstanciada no livro “O Evangelho Segundo o Espiritismo” (1864) e por fim a quarta parte relativa “As Esperanças e Consolações” ficará compreendida na obra “O Céu e o Inferno” (1865).

O livro “O Céu e o Inferno” ou “A Justiça Divina Segundo o Espiritismo” está dividido em duas partes: na primeira Kardec trabalha a exposição dos fatos e na segunda o codificador expõe exemplos através dos depoimentos de testemunhas. A obra é um exame comparado das doutrinas sobre a passagem da vida corporal à vida espiritual, sobre as penalidades e recompensas futuras, sobre os anjos e demônios, sobre as penas, etc., seguido de numerosos exemplos acerca da situação real da alma durante e depois da morte.

Com esta obra Allan Kardec contesta todos os dogmas da Igreja Católica. De imediato combate a ideia de que o céu e o inferno seria o fim, demonstrando que tudo no universo evolui. Com Kardec, as penas e recompensas de após a morte saem do plano obscuro das superstições e do misticismo dogmático para a luz viva da análise racional e da pesquisa científica. 
Na primeira parte do livro, Kardec realiza um exame crítico, procurando apontar contradições filosóficas e incoerências com o conhecimento científico, superáveis, segundo ele, mediante o paradigma espírita da fé raciocinada. São expostos vários assuntos - Causas do temor da morte, porque os espíritas não temem a morte, o céu, o inferno, o inferno cristão imitado do pagão, os limbos, quadro do inferno pagão, esboço do inferno cristão, purgatório, doutrina das penas eternas, código penal da vida futura, os anjos segundo a igreja e o Espiritismo, aborda também vários pontos relacionados com a origem da crença dos demônios, segundo a igreja e o Espiritismo, intervenção dos demônios nas modernas manifestações e a proibição de evocar os mortos.  
Na segunda parte, constam dezenas de diálogos que foram estabelecidos entre Kardec e diversos espíritos, nos quais estes narram as impressões que trazem do além-túmulo, e de como se deu o processo de desencarne para pessoas de diferentes tipos de caráter.  A segunda parte deste livro é dedicada ao Pensamento; Kardec reuniu várias dissertações de casos reais, a fim de demonstrar a situação da alma, durante e após a morte física, proporcionando ao leitor amplas condições para que possa compreender a ação da Lei de Causa e Efeito, em perfeito equilíbrio com as Leis Divinas; assim, constam desta parte, narrações de espíritos felizes, infelizes, espíritos em condições medianas, sofredores, suicidas, criminosos e espíritos endurecidos.  
O trabalho contundente de Kardec nesta obra irá provocar uma série de contestações de vários setores da sociedade parisiense e, sobretudo, da Igreja Católica. O texto a seguir foi extraído, na íntegra, do livro "Obras Póstumas" e retrata segundo o próprio Kardec tal situação: 

 

“Escrevo esta nota no dia 1º de janeiro de 1867, dez anos e meio depois que esta comunicação me foi dada, e verifico que ela se realizou em todos os pontos, porque experimentei todas as vicissitudes que nela me foram anunciadas. Tenho sido alvo do ódio de implacáveis inimigos, da injúria, da calúnia, da inveja e do ciúme; têm sido publicados contra mim infames libelos; as minhas melhores instruções têm sido desnaturadas; tenho sido traído por aqueles em quem depositara confiança, e pago com a ingratidão por aqueles a quem tinha prestado serviços. A Sociedade de Paris tem sido um contínuo foco de intrigas, urdidas por aqueles que se diziam a meu favor, e que, mostrando-se amáveis em minha  presença, me detratavam na ausência.Disseram que aqueles que adotavam o meu partido eram assalariados por mim com o dinheiro que eu arrecadava do Espiritismo. Não mais tenho conhecido o repouso; mais deu ma vez, sucumbi; sob o excesso do trabalho, tem-se-me alterado a saúde e comprometido ávida. Entretanto, graças à proteção e à assistência dos bons Espíritos, que sem cessar me têm dado provas manifestas de sua solicitude, sou feliz em reconhecer que não tenho experimentado um único  instante de desfalecimento nem de desânimo, e que tenho constantemente prosseguido na minha tarefa com o mesmo ardor, sem me preocupar com a malevolência de que era alvo. Segundo a comunicação do Espírito Verdade, eu  devia contar com tudo isso, e tudo se verificou”.(Allan Kardec - Livro Obras Póstumas - Segunda Parte - A minha primeira iniciação no Espiritismo - Minha Missão).

Em última análise é bastante razoável admitir que o livro “O Céu e o Inferno” coloca ao alcance de todos, os conhecimentos do mecanismo pelo qual se processa a Justiça Divina, em concordância com o princípio evangélico: "A cada um segundo suas obras".

*Izaias Lobo Lannes - 15º Conselho Regional Espirita.